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Carnaval, violência e máscaras

Publicado em: 20/02/2017 às 9:11 - Categoria Opinião
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imagem ilustrativa

É quase cômico ver a Classe Morna preocupada com a possibilidade de violência no carnaval da cidade. Segundo eles, o aumento dos crimes violentos ocorridos no final e início de ano significahenrique riscos para os foliões que vão à rua para se divertir no carnaval. Sério mesmo? Parece estranho, pois boa parte deles já alugou a casa na praia para curtir o feriado prolongado, outros já combinaram com amigos e parentes de irem para o rancho, clubes, viagens… Outros sequer gostam de carnaval – ou qualquer feriado – pois lhes cai como perda de tempo, ou de renda financeira. Então, estariam eles preocupados com os familiares e amigos que pretendem passar o período festivo na cidade? Talvez. De toda forma, é fato que boa parte desse medo advém de uma completa alienação sobre a estrutura desses crimes ocorridos. Aliás, a alienação é a característica principal dessa classe e, no fim das contas, o fertilizante de seu medo imaginário.
A Classe Morna, pra quem não a conhece, foi identificada já em Apocalipse 3:15: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente!” Quer dizer, trata-se de um grupo de pessoas “mornas”; que estão no meio do caminho, não chovem e nem molham, não são ricos e nem pobres, levam a vida na fachada por falta de engajamento significativo em quase tudo que fazem. Não esquentam em temperatura ideal para um bom café, tampouco esfriam suficientemente bem como a água de um suco saboroso no verão. Por viverem em cima do muro, sofrem de uma profunda e constante crise de identidade social. E quem não tem identidade angustia-se com a insegurança e vive com medo do mundo.
Grande parte desses crimes ocorridos possui motivações e circunstâncias que sequer passam perto da Classe Morna. São brigas por pontos de venda de drogas, acerto de contas e rivalidades entre aqueles indivíduos que estão no tráfico. “A culpa é da droga então?” Claro que não, Classe Morna. Vocês, enquanto “usuários”, por acaso estão em situação de vulnerabilidade como aqueles que “trabalham” na logística da mercadoria que vocês também consomem? Certamente não. A bala pode até passear pelo centro, no portão da escola e perto de suas casas, mas, o alvo é sempre “um ponto preto na periferia”. E convenhamos, vocês não dão a mínima pra isso. A não ser, é claro, no carnaval. Pois, que outro momento há chances de todos nós dividirmos o mesmo espaço na cidade?
É bom relembrar que essas ações antissociais são expressões de impulsos secundários – não fazem parte da “natureza” do indivíduo. Esses impulsos são produzidos por uma rigorosa supressão das condições básicas de vida, um severo desamparo material e social imposto a determinados grupos. A fragilidade pela falta de equidade socioeconômica e as precárias condições socioambientais são situações de vulnerabilidade que obstruem o desenvolvimento da capacidade de vínculos humanos, que seriam estruturantes de uma personalidade saudável e sociável. Esses grupos vitimados vivenciam limites e restrições concretas à realização de seus interesses e oportunidades, além de prejuízo subjetivo para seu autoconceito. Não experimentam sentimento algum de pertença. Pessoas criadas nessas circunstâncias sociais negativas contraem uma ânsia de prazer, que por sua vez se torna uma neurótica fonte de força destrutiva, em busca do empoderamento negado pelo sistema que estão inseridos.
Precisamos aprender a tolerar a verdade: Se participamos todos dessa mesma rede desigual e precária, cada um de nós é parte integrante na origem da violência. Inclusive a Classe Morna, que se diz preocupada com os crimes, sem ao menos enxergar sua parte nessa engrenagem: violência simbólica praticada cotidianamente, principalmente contra os “bandidos” e “vagabundos” (preconceitos; egocentrismo; abandono; intolerância; imposição de valores como fama, sucesso, consumo e acúmulo de bens, sem, todavia, prover acesso igualitário a todos). Sobre essa modalidade de violência não existe a menor reflexão. Tampouco, por exemplo, sobre o cinismo expresso pela raiva quando são impedidos ou punidos por uso de bebida alcoólica ao volante, em dias de eleição, ou em estádios de futebol. A Classe Morna só enxerga a violência dos outros.
A preocupação em relação à violência no carnaval seria uma máscara convincente não fosse ela fruto de uma ausência de autocrítica e promotora de trágicas conseqüências, durante todo o ano, para grupos de pessoas em estado permanente de riscos e vulnerabilidade, que infelizmente, por vezes, encontram nos crimes uma forma de gritar sua carência. Bem se sabe que a preocupação da Classe Morna termina logo depois do carnaval, mas sua máscara de ser humano, essa perdura o ano todo. Até porque ninguém faz penitência na quaresma pra deixar de ser ignorante.
Classe Morna,… “seja quente, ou seja fria, não seja morna que eu te vomito.”


Henrique Aquino
psicólogo

 



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