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Oremos

Publicado em: 31/10/2016 às 9:04 - Categoria Opinião
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imagem ilustrativa

Era uma dessas manhãs dominicais… com leve garoa e horizonte cerzido de nebulosidade pros olhares matutinos daquele povo. Como costume semanal e ritualístico, dirigiam-se pequenas henriquecongregações familiares para o maior templo sagrado da região; erguido há centenas de anos… desde a época que por cá um pau se viu dar em uns, e queimar em brasis de outros. Desde a matança do rosto desse outro. Desde que se viu cor negra a partir do olho branco, desde que um Deus inventou um trono, enxotando outros deuses de guetos em nome de progresso. Desde aí, que por aqui se vê reinar o ruim, a preguiça de mudar… a persistência, por estratégia inteligente, de um buraco entre o mais miserável vivente e o mais temerário tenente. História antiga essa nossa, pois.
Quando todos acostados em seus assentos, mais ou menos confortáveis dentro de suas roupas de meia-estação, toma o púlpito o sacerdote para o início do sermão definido previamente desde o último domingo: O quinto mandamento. Nesse lapso, o vento baforou com tal excesso que todas as janelas e portas bateram, trancafiando todas as almas em unívoco som, fazendo cantar os sinos no topo da cidade. Antes mesmo de qualquer um se recuperar do susto e pôr sentido na bruxaria, um cafuzo sexagenário apareceu ao lado do sacerdote lhe tomando a palavra. O senhor de voz cava, corcunda pelos anos recluso sobre livros ditos pelos malditos, vociferou aos presentes: – Fiem! Deus é natureza, quando está no em torno; e no meio de nós, em forma de rosto!
Enquanto as pessoas se dividiam em variegados entendimentos do que se passava, prosseguia o mensageiro aos olhos arregalados: – Precisamos aprender a olhar no rosto do outro, de modo que nosso eu se preserve em pura relação. Reconhecer um rosto e falar com ele significa, desde seu nascimento, confirmar sua diferenciação e, por isso, destino de toda nossa generosidade, gratuidade e responsabilidade. Só assim podemos chegar à oração elevada, que pertence apenas aos justos.
– Oremos, não com pedido de entrega para seus próprios arrochos, ou na intenção de atenuar teu sofrimento umbilical. São formas menos elevadas de oração e Deus está enojado dessa prece que parte e tem seu fim no próprio tagarela. Matracas faladeiras feitas de língua de papagaio criado no meio do sarará, vocês se esquecem que Ele já ta na cara de todo aquele que sofre? Então não ore para si, obre para o outro. Ore pelo sofrimento de Deus, que se atormenta pela mazela lastrada na terra de todo homem, pelo homem. Não se ora por si mesmo, obra-se pela gente. Essa é a oração dos justos. Pouca coisa importa às almas justas tanto quanto outra alma. A epifania da palavra jamais pode advir do sermão de uma autoridade sedutora, que por vezes arrasta com baixos verbos e adjetivações à violência e ao desprezo de outros homens. É preciso procurar a experiência originária de se religar. Essa experiência está no rosto do outro que, nos grita sua fome em silêncio, no que respondo com amor des-interessado… sem concupiscência. Essa experiência também está na chuva, que faz crescer a vida verde – batizada de Esperança – e que banha as almas vestidas de corpo e possuídas de rosto.
– Não ame ao próximo como a ti mesmo, irmão. Ame ao próximo como um outro dessemelhante e próprio que ele é. Nossa semelhança está num plano outro… transcendente. Cada um de nós que trave antes uma luta contra si mesmo para, quiçá, chegar a uma tímida convivência de ser aqui. Numa relação reinventada que não mire a qualidade dos dentes ou a encorpadura das canelas, mas, um estar aqui de proximidade que reconhece a expressão humana e singular que emerge de um rosto. Nesse sentido, meus amigos, a morte não é nosso limite. Nosso limite está na vida, encarnado e expresso no rosto do outro. Uma ética que não tem seu princípio no outro é uma ética do diabo…
Um jovem rapaz com fortes traços de coragem européia, que se angustiava ao fundo do templo pelo fervor da situação, aproximou-se de uma imagem posta ao lado da primeira janela à direita. Por detrás de algumas pessoas, sacou silenciosamente uma das sete flechas encontradas ali e a escondeu atrás das costas. Seguiu de calcanhar apertado no chão, vagarosamente até a frente, aonde sua força pôde arremessá-la. Num golpe certeiro, acertou o meio da garganta do velho, que engoliu sua última meia-palavra antes de cair. As pessoas ficaram perplexas.
O sacerdote que estava ao lado do velho ajoelhou e lhe prestou a extrema-unção. Quatro homens retiraram o corpo envolto num manto emprestado da sacristia. O sacerdote, ainda trêmulo, mas com notável ar de alívio que exibia no alargar de sua pleura, tomou o livro na mão, agradeceu aos céus, abençoou os presentes e deu início à ladainha decorada: – A vida humana é sagrada, porque é fruto da criação de Deus; ninguém pode atribuir-se o direito de matar a um ser humano…


Por Henrique Aquino – Psicoterapeuta

 



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