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Mães não são sagradas

Publicado em: 13/05/2017 às 16:12 - Categoria Bem Viver
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foto ilustrativa

O relógio não marcava 8 da manhã quando passei em sua casa. Sempre muito sorridente, deu-me “bom dia” e iniciamos um bom papo, como sempre. Nos encontramos pouco, geralmente de 15 pAULOem 15 dias. Durante o percurso, de sua casa até a minha, surgem os mais diversos assuntos, ela costuma dizer que gosta de ouvir minha opinião sobre as “coisas da vida”. Curiosamente, nessa quarta que antecede o “Dia das Mães”, tocamos num assunto delicado: a maternidade. Contou-me um pouco sobre seus traumas e arrependimentos. A conversa tornou-se um desabafo.
Chegamos. Estacionei o carro, abri o console para lhe entregar as chaves da minha casa, quando vi, em seu rosto, o pranto rolar. Ali, na minha frente, estava uma mulher cheia de angústias, insegura, com um medo enorme de errar, amedrontada pela vida. Ali, na minha frente, havia uma mãe de verdade.
Mães carregam um fardo pesado e cruel, o da perfeição. O famoso (e comercial) “Dia das Mães” é quase um massacre. Um bombardeio de frases feitas, a maioria delas dando às mães adjetivos que não se aplicam a um ser humano, ou, pelo menos, não deveriam.
“Mãe é sagrada” – é um exemplo de frase que mais me assusta. Mães são mulheres, dotadas de sede pela vida. Repletas de desejos mundanos. A carne ainda fantasia. A pele ainda arrepia. Não conheci, pelo menos até hoje, nenhuma mãe querendo ser sagrada, bem pelo contrário, a maioria delas quer ser vista como mulher. Mulher, por si só, já é muito.
“Mãe, você é a melhor do mundo” – seria bom se explicassem o tamanho desse mundo, acredito que isso diminuiria o peso sobre seus ombros, evitando comparações com outras mães. A frustração, estampada na testa da maioria das mães, é triste e preocupante, afinal, a “fulaninha”, mãe do “fulaninho”, tem um horário flexível no trabalho e consegue prestigiar todas as apresentações do filho na escola. Nunca chegou atrasada, nem buscou seu filho arrasado, engolindo o soluço, choroso, porque sua mãe não conseguiu chegar a tempo naquele dia. E não é só isso, a “fulaninha” ainda acha tempo pra ir à academia, ao salão e ter um canal no Youtube dando dicas de moda e culinária gourmet, já a nossa mãe, uma trabalhadora qualquer, afundada num sistema capitalista selvagem, dando um duro danado pra pagar a mensalidade da escola do filho, que consome mais de 50% do seu salário bruto, mal consegue passar um esmalte.
Ah, não podemos esquecer que ela só passou o esmalte depois de ter feito a janta para o marido (que obviamente não sabe cozinhar), limpado tudo, deixando a cozinha impecável, feito a tarefinha do filho, tê-lo colocado no banho, recolhido a roupa no varal, dobrado e guardado em suas respectivas gavetas, enquanto tenta adivinhar com qual blusa o marido gostaria de trabalhar amanhã cedo. Ela já havia passado a vassoura na casa, porque a faxina ficará para o fim de semana, já é de domínio popular que ela não precisa descansar, e, finalmente, vai colocar o filho na cama. Ufa, agora sim ela está pronta para cuidar de si.
Será que os “marqueteiros” não têm mãe? Seria tão difícil criar campanhas publicitárias com mais empatia? São mulheres. São humanas. São falíveis. São falhas. São pessoas em processo de evolução, vivendo em uma família, e a família é um meio de troca de experiências. Ela aprenderá com o marido e com os filhos. A responsabilidade deve ser compartilhada.
Mães são pessoas – leiam bem, pessoas – extraordinárias em suas imperfeições, fantásticas em suas inseguranças, maravilhosas em seus erros. Ninguém entregou a elas um manual prático da maternidade, ou lhes deu a pílula do conhecimento, mesmo assim, elas se arriscam, investigam, descobrem, aprendem, desdobram-se e superam seus limites todos os dias: o que pode ser mais lindo e humano do que isso?
Mãe, obrigado, você é a melhor mãe “do nosso” mundo!


Por Paulo Curió

Revisão Literária: Marcos Andrade

 


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