Perdões, com suas ruas serenas e rostos familiares, parece um lugar onde coisas extraordinárias dificilmente acontecem, certo? ERRADO! Munido de alguma habilidade investigativa da alma humana, venho presenciando fenômenos nunca antes vistos: apagões, aparições, “apaixonações” & apavoramento. Enfim, mistérios sortidos. A questão é: e se um belo dia você, caro leitor, encontrasse alguém idêntico a você andando despreocupado pela praça – com o mesmo jeitinho de falar, caminhar e até de se vestir? Não seria assustador?
Calma, eu explico. No folclore europeu, essa figura tem nome: doppelgänger. Ela consiste numa palavra alemã (idioma do Capeta), significando “duplo que caminha”. É como se fosse um reflexo seu, mas em carne e osso. Para os vetustos noveleiros, uma espécie das gêmeas Ruth e Raquel de Mulheres de Areia. Entenderam? Certas culturas apregoam que encontrá-lo traz azar; outras, que ele vem como mensageiro de algo importante. Seja como for, aqui em Perdões, a história tomou um rumo mais curioso.
Tudo começou numa tarde ordinária, na fila da padaria. Dona Lourdes, conhecida por seu bom humor e seu queijo de receita premiada, congelou ao ver uma mulher entrando no estabelecimento. A tal criatura era, era… igualzinha a ela! O mesmo coque, os mesmos óculos e até o mesmo avental florido. Mas havia um detalhe: a outra Lourdes estava séria, taciturna. Dir-se-ia: macabra.
Os consumidores na fila, boquiabertos, começaram a murmurar: “UAI, isso tá certo?!”. Já a nossa boa Lourdes, a original, só conseguiu balbuciar: “Quem é você?” Então, sua bizarra versão vociferou: “EU ACREDITO NA CURA DO QUEIJO!” Sorriu, deu meia-volta e saiu pela porta. Dona Lourdes, transtornada, foi atrás, porém a rua estava vazia. A notícia desse pitoresco encontro se espalhou pela cidade, feito rastilho de pólvora. Houve quem afirmasse se tratar de um fantasma, um espírito ou até de uma pegadinha.
Dias depois, neste mesmo município mineiro, algo ainda mais esquisito aconteceu. Seu Geraldo, o sapateiro, viu seu próprio doppelgänger mexendo em sua caixa de ferramentas. No entanto, quando foi confrontá-lo, o outro Geraldo apenas sentenciou: “Você precisa consertar aquilo que está quebrado!”. E, puft, desapareceu.
Intrigado, Geraldo, em sua oficina, percebeu que havia esquecido de pregar a sola de um sapato importante – um erro que poderia ter maculado sua fama de perfeccionista. Ele nunca nos revelou os pormenores de sua enigmática experiência.
Nesta semana, nova fofoca correu solta: o barbeiro tinha se deitado com a mulher do padeiro. Todos na cidade comentavam o caso – indignados ou admirados – a depender do ponto de vista. Mas o barbeiro jurou, juradinho, que não era ele. De fato, inocente, o acusado! Após sindicâncias, foi constatado que uma cópia perfeita, seu doppelgänger, circulava pelas redondezas cometendo pecados em nome alheio.
Vistos esses exemplos, pinçados do cotidiano perdoense, os rumores sobre doppelgängers começaram a mexer com a cuca dos moradores. Muitos dizem que esses encontros, se reais, eram alertas para algo que estava errado na vida da pessoa. Outros acreditam serem sonhos, porres ou as tais fake news.
No fim das contas, a cidade inteira ficou mais introspectiva. Cada um começou a se perguntar: “E se eu visse meu próprio doppelgänger? O que ele me diria? Estarei vivendo a vida que deveria viver?”.
Você, caro leitor, já imaginou o que seu “outro eu” poderia lhe anunciar? Em Perdões, até simples histórias nos fazem questionar sobre quem somos e quem poderíamos ser. Pensando bem, o mais assustador não seria trombar nesse duplo, mas compreender que ele sabe coisas profundas, personalíssimas, ignoradas por nós. Da próxima vez que estiver vagando pela praça ou escolhendo um pãozinho na padaria, dê uma boa olhada em volta! Nunca se sabe quem você pode encontrar…
por Maxmiller Hübner