NAVEGAR É PRECISO

5 de maio de 2026 13:01 38

Em certa noite de insônia — dessas em que o sono se perde como nau em mar de névoa — sucedeu-me coisa curiosa. Estava eu a matutar sobre a vida, que é mar grande e sem mapa, quando senti o leve ranger de madeira, como se o assoalho de casa se lembrasse de ser convés.
E então ouvi uma voz antiga, um pouco salgada, como quem atravessou muitos mares.
— Boa noite vos seja.
Voltei-me, e ali estava um homem barbado, de capa um tanto úmida de maresia e olhos que já viram mais horizonte que gente. Parecia cansado, mas não triste — antes com o ar de quem já percebeu os ardis do mundo.
— Quem sois vós? — perguntei, pois sustos também pedem educação.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Pero Álvares Cabral, a vosso serviço… ou mau serviço, como dizem as estórias que por aí correm.
Confesso que estranhei. Não é coisa de todo dia receber visita de navegante quinhentista no meio da madrugada. Mas a insônia tem dessas liberalidades.
— Vinde cá — disse-lhe —, dizem que descobristes o Brasil.
Ele soltou um riso curto, desses que balançam a barba.
— Descobrir? Palavra grande para cousa tão pequena.
Sentou-se como quem encosta numa amurada invisível.
— Eu, senhor, só navegava. O mar empurrava a nau, o vento soprava a seu talante, e nós íamos. Um dia surgiu terra. Assim como surge pensamento no entendimento dos homens: de repente, e sem pedir licença.
— Mas então… não descobristes?
Ele coçou o queixo, pensativo.
— Descobrir he palavra de quem chega depois e quer parecer primeiro.
Fez pausa, olhando para algum ponto que não estava na sala, talvez no Atlântico.
— Aquela terra já tinha nome, gentes, árvores, canto de pássaros e meninos correndo pela areia. Chamavam-lhe Pindorama, e nome tão bonito que até parece vento nas folhas.
Suspirou.
— Nós aportamos, e Caminha a pôs em carta: Terra de Vera Cruz. Como se o mundo fosse papel por escrever, esperando tinta portuguesa.
Ri, porque verdade dita com jeito sempre traz algum humor.
— Então, capitão — disse-lhe —, que foi afinal aquela viagem?
Ele abriu as mãos.
— Navegar.
— Só isso?
— Só isso. Navegar he obra do homem, que cuida ter senhorio da rota. Mas o vento, rindo‑se dele, toma por si o leme.
Ficamos ambos calados por um instante. O silêncio tinha cheiro de sal.
Por fim ele levantou-se, ajeitando a capa.
— Sabei vós hũa cousa — disse‑me. — Naquelle tempo cuidava eu haver descoberto hum mundo novo; mas, corridos os annos, melhor o entendi.
Aproximou-se da porta, já meio transparente como bruma de manhã.
— Non fui eu que achei o mundo.
Sorriu com certa malícia de velho marinheiro.
— Cuida o homem ir senhor do mar; porém o mundo, de vagar, he quem lhe toma o leme.
E, dizendo isto, desapareceu como quem entra na neblina do porto.
Fiquei outra vez só com minha insônia.

Marco Túlio Alvarenga

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