
A história costuma exaltar líderes carismáticos, figuras de discursos inflamados e gestos grandiosos. Mas, vez ou outra, surge um presidente cuja maior virtude não está no brilho, e sim na responsabilidade. Assim foi Itamar Franco.
Itamar não chegou ao poder pelo voto direto para presidente. Ele assumiu em 1992, após o impeachment de Fernando Collor de Mello, em um dos momentos mais delicados da jovem democracia brasileira pós-1988. O país vivia um abalo institucional profundo. A população estava descrente da política. A economia era um campo minado. A inflação ultrapassava índices absurdos, corroendo salários quase que diariamente.
Era um Brasil cansado.
Sem alarde, Itamar assumiu com a consciência de que sua missão não era protagonizar, mas reconstruir. Seu governo foi marcado por um esforço de pacificação política e estabilidade administrativa. Em vez de governar com rompantes, optou por diálogo e composição. Em vez de promessas grandiosas, buscou soluções técnicas.
Seu gesto mais decisivo foi montar uma equipe econômica capaz de enfrentar o maior drama nacional da época: a hiperinflação. Ao convidar Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda, abriu espaço para a construção do Plano Real ,uma das mais importantes reformas monetárias da história recente do Brasil.
O Plano Real não surgiu de improviso. Foi fruto de planejamento, estudos e coragem política. E, embora o sucesso da nova moeda tenha impulsionado a carreira de FHC, foi sob o governo de Itamar que o projeto ganhou vida e respaldo. Ali, consolidava-se o início da estabilidade econômica que mudaria a rotina de milhões de brasileiros.
Itamar também tinha um estilo peculiar. Mineiro, reservado, muitas vezes imprevisível, não cultivava a imagem de líder messiânico. Sua postura transmitia algo raro na política: senso de dever. Sabia que governava um país ferido institucionalmente e precisava restaurar a confiança nas instituições.
Seu governo foi de transição ,mas uma transição fundamental. Ele compreendeu que, após um trauma político, o Brasil precisava de serenidade. Precisava reorganizar a casa antes de voltar a sonhar grande.
Talvez o maior legado de Itamar Franco tenha sido mostrar que nem todo líder precisa de holofotes para ser decisivo. Às vezes, a grandeza está justamente na capacidade de preparar o terreno para que o país volte a crescer.
Em tempos em que o debate público frequentemente se confunde com espetáculo, revisitar a trajetória de Itamar é refletir sobre que tipo de liderança valorizamos. A que grita mais alto? Ou a que trabalha nos bastidores para garantir estabilidade?
A história pode até não lhe dar o mesmo destaque que dá aos presidentes mais polêmicos. Mas há momentos em que o Brasil precisou de equilíbrio e ele esteve lá.
Leandro Henrique