Jorgina – transformando o que a sociedade descarta em sustento e dignidade

30 de dezembro de 2025 17:03 267

Jorgina Tábata Mariano da Silva nasceu em Santo André/SP em 25 de março de 1986.
Ela é filha de Maria José da Silva e Alaor Mariano da Silva; irmã de Hércules, Camila e Ana Paula; casada com Bolivar Sales Júnior; mãe do Charles, Cheila, Matheus, Marlon, Kaleb, Ana e Samuel.
A entrevista gravada na pequena sala de sua casa, próxima ao “antigo lixão” onde trabalhou por anos.
Jorgina é uma mulher que enfrenta a vida e realiza um trabalho através da reciclagem e assim colabora com o meio ambiente e ajuda no sustento da sua casa.
Muitos a conhecem com seu carrinho de mão, pesado, pelas ruas de Perdões, enfrentando as mudanças do clima – sol, chuva, mas lá vai ela atuante na reciclagem.
Aos 10 anos de idade mudou com sua família de Santo André – SP para Cerradinho – Cana Verde/MG. Na adolescência conheceu um rapaz que veio a ser seu marido. Há 19 anos veio para Perdões, onde mora até hoje.

Jornal Voz: Como foi a sua infância Jorgina?
Jorgina: Regina, a minha infância não foi fácil. Perdi meu pai quando estava com 9 anos de idade, minha mãe teve que ficar lá no Cerradinho e ela deixou eu para tomar conta dos irmãos, cuidar da família. Não tive estudo, mas graças a Deus, Ele me deu sabedoria e sei muita coisa. Desde os nove anos trabalhei, ajudando minha mãe: casa de família, capinando e arrancando feijão.


Jornal Voz: Você tinha uma casa no antigo lixão, e trabalhou ali na reciclagem. Agora você mora nessa casa.
Como você conheceu e entrou nesse trabalho?
Jorgina: Eu sempre passava em frente ao lixão, observava e achava interessante o povo estar trabalhando. Aí teve um dia que uma amiga falou assim: ”Jorgina, por que você não vem experimentar trabalhar aqui?”
Eu estava trabalhando em casa de família, e assim saí deste trabalho e fui. Gostei e estou até hoje nesse ramo.


Jornal Voz: Reciclagem. Você vê a importância da sua atuação na separação do lixo aproveitável e assim colaborar com o meio ambiente?
Jorgina: A gente coleta o que vai para o lixo e pode ser aproveitado, sei da importância disso, infelizmente, tem muita gente que não vê essa importância.


Jornal Voz: Quando está chovendo como você e as pessoas que trabalham nessa separação de lixo reciclável e do orgânico, como vocês fazem?
Jorgina: Então, no tempo em que a gente trabalhava direto no lixão, trabalhava embaixo da chuva; mas agora arrumaram um galpão para a gente trabalhar.


Jornal Voz: Onde é esse galpão?
Jorgina: É perto da Casa da Benção.


Jornal Voz: E as pessoas podem levar os recicláveis lá ou vocês também buscam?
Jorgina: Pode levar lá, e nós buscamos também.


Jornal Voz: Você passa com seu carrinho em muitas ruas de Perdões e percebemos que você construiu boas amizades também.
Jorgina: Sim. Faço quase todas as ruas de Perdões. Só onde tem muito morro que eu não vou com meu carrinho. Faço muitas amizades graças a Deus.


Jornal Voz: E como você vê as lutas do dia a dia?

Jorgina: Regina, eu aprendi uma coisa – a gente tem hora que passa por uma dificuldade. Eu sou um tipo de pessoa que nunca levo os tipos de dificuldades para rua. Ficam guardados comigo, não mostro tristeza para os outros por mais que a vida não é fácil. (Percebo que ela se emociona…)


Jornal Voz: Na época do funcionamento do lixão, usava-se o termo ”Reciclagem” ou só “lixão”?
Jorgina: Era o ”lixão”, hoje é uma Cooperativa ACARPER – Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Perdões.


Jornal Voz: Na sua família tem mais pessoas que trabalham com a reciclagem?
Jorgina: Minha mãe já reciclou, o marido dela e meu irmão.


Jornal Voz: Quais são seus sonhos?
Jorgina: Crescer, evoluir. Ter para poder ajudar as pessoas. Jesus é tudo na minha vida.
Gosto do meu serviço porque ali eu falo de Jesus para as pessoas. Converso com as pessoas, às vezes elas estão tristes. Aí, trago alegria para as pessoas.
Sonho também em aumentar os cômodos da minha casa. (Comprei com o dinheiro da reciclagem e paguei em 3 anos).


Jornal Voz: Quais os dias que você sai para buscar os materiais recicláveis?
Jorgina: Vou de segunda a sexta feira, das 7 horas ao meio dia, na Cooperativa, hoje, estamos, eu, Maraísa e o Cláudio, mas são 7 pessoas com o serviço. Lá fica aberto de segunda a sexta feira até às 4 horas da tarde.


Jornal Voz: Sua mensagem para todos nós.
Jorgina: Esse trabalho que eu faço é tudo para mim. Ajudo eu mesma e também ajudo as pessoas. Às vezes a pessoa está lá com garrafas guardadas, aí eu passo com o carrinho e ela me passa para a reciclagem.
Mesmo com as campanhas para conscientizar, muitas pessoas colocam o material todo junto. Estando separado, me ajuda e ajuda os coletores do lixo. Tem eu, tem a Maraísa e o Cláudio que estão junto comigo na Cooperativa.
Quanto ao natal, relembro que já passei muito aperto na vida, muita dificuldade, as pessoas me ajudavam muito com cestas, várias coisas. E sei que há outras pessoas que precisam ser ajudadas.
Que as pessoas ajudem porque o amor ao próximo não é só no natal; é todos os dias.

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