Mundo Cênico homenageia o Sr. Nestor Francisco

17 de junho de 2026 12:02 51

Nestor Francisco: fé, resistência e tradição em Perdões Nestor Francisco nasceu em 2 de fevereiro de 1927, na zona rural de Perdões. Filho de Emídio Francisco e Maria José de Jesus, trazia em sua origem a marca de uma história dura: seu pai havia sido escravizado e veio do Rio de Janeiro, assim como sua mãe, que foi o segundo casamento de seu pai.

Aos cinco anos de idade, Nestor mudou-se com a família para Perdões. Após um período de constantes mudanças, estabeleceram-se na atual Palestina. Sua infância foi marcada por grandes dificuldades: enfrentou a fome e, aos sete anos, com a morte do pai, precisou começar a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Ainda criança, fez uma promessa à mãe, de que ela nunca mais precisaria pedir nada a ninguém, compromisso que carregou com dignidade por toda a vida.

Teve quatro irmãos: José Francisco, Novais Francisco, Francisca de Jesus e Manuela Francisco, com quem dividiu as dificuldades e aprendizados de uma vida simples, porém resiliente.

Aos 18 anos, conheceu Maria Bárbara Francisco, com quem se casou e construiu uma numerosa família. Juntos, tiveram 11 filhos: José Francisco (Curimba), Emídio Francisco, Maria Aparecida Francisco, Nestor Francisco, Mercês Nazaré Francisco, Georgina Francisco, Ângela Maria Francisco, João Carlos Francisco, Antônio Carlos Francisco, Pedro Francisco do Nascimento e Natália Francisco. Maria Bárbara faleceu em 1985, deixando uma lacuna profunda em sua trajetória.

Sem acesso à educação formal na infância, Nestor só teve contato com a alfabetização na fase adulta, por meio do MOBRAL, onde aprendeu a escrever o próprio nome. Ainda assim, surpreendia a todos com sua impressionante habilidade com números, demonstrando uma inteligência prática e aguçada para a matemática.

Ao longo da vida, enfrentou inúmeras provações. Viveu o sofrimento de perder filhos e teve sua casa destruída por um incêndio. Também enfrentou a fome e o racismo, marcas que não o endureceram, mas fortaleceram ainda mais seu caráter e sua fé.

Seu envolvimento com o congado começou ainda na infância, movido pela curiosidade e pelo encanto com a tradição. Inicialmente impedido pelos

pais, um dia decidiu participar escondido de uma festa. Seu interesse chamou a atenção de Joaquim Martins, capitão de terno, que procurou sua mãe e pediu permissão para que Nestor participasse sob sua responsabilidade. A partir daí, iniciou-se uma trajetória profunda com o congado.

ob a orientação de Joaquim Martins e Joaquim Antônio, da comunidade São Domingos, Nestor aprendeu os fundamentos e a espiritualidade do congado. Com o tempo, recebeu deles não apenas ensinamentos, mas também a responsabilidade de conduzir seus ternos: o de Catopé e o de Moçambique, respectivamente, assumindo essa herança com seriedade, respeito e amor.

Nestor tornou-se uma figura central na preservação e ortalecimento do congado em Perdões. Em um período em que as festas foram proibidas por lei no município, ele, ao lado de Venino Rondon de Lima, Otávio de Castro e Zé Piau, mobilizou-se e foi até o juiz local solicitar a revisão da decisão. A iniciativa teve sucesso, garantindo o retorno da manifestação cultural à cidade.

Agricultor por toda a vida, Nestor também era apaixonado pela música. Gostava de samba e de artistas como Xavante e Xantinho e Chico Mineiro, mantendo viva a conexão com a cultura popular.

Homem de fé inabalável e coração generoso, era conhecido como benzedor e conselheiro. Sua casa estava sempre aberta, cheia de familiares e amigos, onde nunca faltavam alimento, acolhimento e uma palavra amiga.

Faleceu em 21 de junho de 1.999, aos 72 anos, vítima de um infarto fulminante, deixando uma história marcada pela luta, pela resistência e pela devoção. Um legado que permanece vivo na memória de Perdões, especialmente na cultura do congado, que ele ajudou a manter pulsante mesmo diante das adversidades.

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